
Quando pensamos em fazer esse post, senti uma responsabilidade tremenda, o frio tomou conta da minha barriga. Como eu me ligo muito em algumas culturas do oriente, sei que falar de um Mestre tão renomado seria uma honra de peso. Então reverencialmente peço licença ao Mestre Kaoru Ito para falar um pouco de sua vida e da exposição que ele promove.
O Mestre Kaoru Ito é um entusiasta cultural. Em seus olhos transparecem a vontade em disseminar a arte e suas mais de 28 técnicas artísticas, que ele aprendeu e desenvolveu ao longo de vários anos de estudo e trabalho em países como Japão, Itália, Espanha, França e Estados Unidos.

Eu já ouvi algumas das estórias do Mestre pela boca de um de seus discípulos, o Lelo, meu amigo e parceiro de trabalho, mas mesmo ele sendo um discípulo exemplar, e contando de boca cheia e com riqueza de detalhes, não me sinto apto a repetir as estórias por aqui. Pesquisando alguns artigos do Mestre achei esse depoimento dele próprio no site de 100 anos da imigração japonesa, clique aqui para ver o site. Vale à pena conferir essa vida de conhecimento.
“Nasci no mês em que a guerra começou, a guerra contra a China. Cem dias depois, meu pai faleceu. Conheço meu pai só através de foto. A família toda morava na casa da minha avó, mãe do meu pai. Era em Nagasaki, no Japão, mas fora do centro.
Minha lembrança mais antiga é de quando eu tinha 6 anos. Foi uma briga. Não lembro o motivo, mas sei que era contra um adulto. A gente tinha uma espada em casa, que era do meu pai. E eu lembro que fiquei tão bravo que apanhei a espada e queria ir lá cortar a pessoa! Mas eu nem conseguia levantar a espada, de tão pesada que era.
Com 8 anos, conheci a bomba atômica. Foi no dia 9 de agosto. A gente estava no sítio da família, a 3 quilômetros de onde ela caiu. Nagasaki tem duas montanhas grandes. A bomba caiu no meio e eu estava do outro lado. Eu e meu irmão estávamos brincando numa área de plantações, em uns terraços na encosta da montanha. Quando a bomba explodiu, nós sentimos um vento muito forte, igual tufão. Eu e meu irmão batemos na parede e ficamos meio desmaiados. Em Urakami, onde a bomba caiu, estava tudo escuro, aquela fumaça. E a gente via pedaços de madeira, de casas, voando no ar. O telhado da nossa casa voou todo. A casa ficou pelada.
Depois de oito dias, eu fui lá procurar o meu tio, que trabalhava em Urakami. Antes não podia ir, tinha polícia que não deixava. Mas eu não encontrei o corpo do meu tio. Só o braço. Estava todo preto, mas dava pra ver a tatuagem com o nome dele. Por isso a gente conseguiu identificar. Na época muita gente tatuava o nome. Se morresse, os outros saberiam quem era. Aí peguei o braço do meu tio, botei nas costas, levei pra minha casa e nós queimamos. Eu não tinha medo. Fuçava no meio de gente morta, fedendo, e não tinha medo. A gente lembra agora, dá arrepio no corpo. Eu não teria coragem de fazer isso hoje.
Depois da bomba, comecei a treinar judô e caratê. Eu queria me vingar, queria matar americano. Quando um americano passava, a gente apontava bambu de três, quatro metros de comprido, e dizia que ia matar ele. Meus tios tinham uma academia de polícia, e eu fui lá estudar artes marciais. Judô eu já estava autorizado a estudar, mas caratê não. Eu estudava escondido.
Ao mesmo tempo, eu tinha um tio que era pintor. Ele tinha uma academia de pintura, e com 10 anos comecei a estudar com ele. Chamava-se Taketaro Noda, é uma pessoa muito conhecida no Japão. Pintou muitas imagens sobre a guerra. Com ele, entrei firme na pintura. Dormia lá, comia lá, ajudava meu tio. Ele pesava 248 kg, e não conseguia deitar de tão gordo que era. Ele dormia sentado.”
Obviamente o mestre fez um pequeno resumo de seus 74 anos, dentre a vida os últimos 10 anos foram dedicados a sua escola Shunkun no Brasil na cidade de São Paulo, onde oferece cursos e técnicas diversas.




Ito chegou ao Brasil em 1955 para passar uns meses que se transformaram em 23 anos, montou um estúdio de desenho, trabalhou para grandes agências de publicidade e ilustrou manuais de carros para a indústria automobilística. Esse tipo do desenho exige técnica e precisão em uma espécie de raio-x onde os detalhes da parte externa e da mecânica do veículo são exatas. Criou também, uma série de logomarcas, muitas delas ainda em uso, como a do Café do Ponto.
Voltou a viajar por diversos países, até cair nas graças do Brasil novamente.
O Sensei atualmente passa seus conhecimentos para cerca de 50 discípulos, as técnicas que eles aprendem lá não tem em nenhuma escola do Brasil.

Todos os alunos são profissionais, e muitos são conhecidos e até premiados no exterior.
A escola existe desde 2001, o Mestre ensina principalmente técnicas Orientais de pintura (algumas são consideradas as mais difíceis de aprender, pois requer muita paciência).
Cerca de 40 alunos do Mestre Kaoru Ito irão expor suas artes do dia 21 a 31 de julho, acontecerá na própria escola das 11 às 19h. Estarão expostas obras que não existem no mercado brasileiro. Vale a pena conferir. A entrada é gratuita.
Ocorrerá a campanha Força Japão, em prol das vítimas do tsunami. Parte do lucro arrecadado com a venda das obras será destinada à campanha.
Shunkun Artes e Cursos
Rua Mourato Coelho, 520, Vila Madalena, São Paulo-SP
Telefones 7127-7769 e 9258-8518
www.shunkun.com.br
Aviso Importante:
Nos dias 22, 23 e 24 de julho, a equipe Gatto Matto Tattoo Studio estará participando da Tattoo Week, em São Paulo.

Esse evento promete, os organizadores convidaram um dos mestres da tattoo Oriental, o japonês Shigue que vem pela primeira vez ao Brasil. Domingo no evento nosso companheiro Lelo vai, finalmente, terminar uma tattoo que começou a 4 anos com Shigue em Milão.
Nós participaremos ativamente da convenção, fazendo tatuagens e competindo nas categorias. Por esse motivo o Gatto Matto não abrirá esse fim de semana.
Endereço do evento: Av. Tancredo Neves, 600, Bairro do Ipiranga, São Paulo-SP
Espaço Tancredo.
www.gattomatto.com.br
Hasta Amigos.