Duña, o venerável e nunca suficientemente louvado profeta dos nossos tempos, mais uma vez interrompeu seus ofícios missionários para recomendações de ordem prática a seus fiéis, desta feita no que se refere ao imbróglio das sacolas de supermercado.
Sorridente e aparentando 23 anos a menos que os seus assumidos 118, o sapientíssimo oráculo derramou bênçãos por onde passava, entupindo de fluidos benfazejos desde a praça municipal até as proximidades da Sorveteria do Neco. Lá estacou, bateu três vezes com o cajado no chão e pediu à multidão que silenciasse e se mantivesse de joelhos enquanto falava.
O pronunciamento segue transcrito na íntegra, conforme colhido pelo Capitão Dorgival Orozimbo de Castro, militar da reserva e taquígrafo nas horas vagas:
“Inicio minha homilia conclamando a humanidade sofredora a reconhecer que mais vale a mercadoria que se coloca dentro do que o saco que a acolhe, seja ele de que material for.
Limita-se a discussão às sacolas que deixarão de ser produzidas doravante, mas ninguém menciona o extraordinário potencial de dinheiro que as sacolinhas já utilizadas renderiam aos meus fiéis de espírito empreendedor.
Aparentemente, nenhum pobre mortal pensou que elas podem ser recolhidas do lixão, esterilizadas e revendidas ao consumidor final a nove centavos e meio a unidade, valor 50% menor que o cobrado pelos supermercados (dezenove centavos).
Lembro aos meus piedosos discípulos que esta não deixa de ser uma forma – ainda que arcaica – de reciclagem. E mais: tendo-se em conta que as sacolinhas levam no mínimo 100 anos para se decompor, o processo de coleta pode se repetir milhares de vezes – isso se as sacolas resistirem sem furos entre uma ida e outra para o lixão, o que me parece improvável.
Deixo ainda uma instrução para aqueles que desejam continuar servindo-se de sacolas plásticas em qualquer estabelecimento sem ter que pagar um tostão por isso. Ao fazer suas compras, passe pelo setor de hortifruti e compre pelo menos um cacho de bananas, talvez meia dúzia de laranjas, quem sabe uma baciada da xepa ou algo ainda mais baratinho. Antes de colocar as frutas e/ou legumes dentro do saco transparente, de qualidade infinitamente superior às citadas sacolinhas e disponibilizado à vontade em rolos de diversos tamanhos pelo setor, coloque uns 30, 40 ou mais sacos no fundo daquele em que for acondicionar os vegetais. Pronto. Na hora de pagar, passe primeiro pelo caixa o saquinho premiado e depois embale tranquilamente sua bem fornida compra de mês nos saquinhos extras legalmente surrupiados.
Concluindo, alerto aos meus seguidores: cuidado ao circular com sacolinhas de supermercado por vias públicas neste momento, onde elas são assunto de acaloradas discussões nas assembleias legislativas e no Congresso. Ontem mesmo, após o culto das 17h22, alguns dos membros da nossa congregação reuniram-se nas escadarias do templo para, inocentemente, aspirarem sua colinha de sapateiro e relaxarem um pouco da faina diária. Pilhados em flagrante pela polícia, que de longe avistou no saquinho de aspiração a marca PAG-PAG, a turminha duñesca foi indiciada em inquérito, sendo a sacolinha imediatamente apreendida, fotografada e encaminhada a laudo pericial. Já a cola de sapateiro, após raspada da sacola pelo Cabo Janjão, foi devolvida num pote de danone ao grupo. Vejam vocês, misericordiosos irmãos!”.
Ditas as palavras finais, o secular iluminado foi aplaudido pela multidão, que o levou nos ombros até a cabana onde vive e pratica a meditação, a penitência e a autoflagelação desde 1942.
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Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário e colunista em diversas publicações impressas e eletrônicas.
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Bem , o caso das sacolinhas aqui em Araçatuba durou exatamente uma semana. Depois que eu comprei umas três, pois nunca lembrava de levar a danada comigo, eles sucumbiram à queda das vendas.
Poluidoras…nao poluem tanto como a classe política. O gosado é que estavam preocupados com a natureza…qual delas nao sei. A natureza dos seus negócios falou mais alto e as sacolas: welcome. Poluindo ou não.
Marcelo!
Uma bela surpresa a cada semana. DUña, o venerável e nunca suficientemente louvável, cumpriu seu dever que suas meditações o levam.
Ainda bem que não sou sua seguidora, pois com certeza o vaiaria. Não é assim, apenas com sacolinhas plásticas que podem ser recicladas, fazendo outras sacolas mais fortes, depois de trançadas, que se proteje a natureza. O homem, que defende isso, quer votos, e o pior, acha-se um ambientalista.
Comprei a tal sacola que também é de plástico e muito mais grosso, e as vendedoras colocaram as mercadorias bem arrumadas, cada uma em suas sacolinhas.
Quando o povo vai aprender que a base da civilização está na EDUCAÇAO, e não nesses modismos?
Enfim, pelo menos o texto está excelente, como sempre.
Parabéns!
Beijos
Mirze
Marcelo, cada dia fico mais surpreso com o poder que você tem de narrar uma doideira como se fosse a mais pura das verdades.
Abraço,
Jorge
E não é que o Cabo Janjão descobriu uma maneira bastante criativa de reciclar os potinhos de danone!
Depois de ler este texto percebi que o grande problema social não são as drogas ou seja lá o que for, mas sim as sacolinhas plásticas onde elas são guardadas ou usadas para outros fins duvidosos.
Muito bom, Marcelo, como sempre!
Um abraço.
Essas sacolinhas, ainda darão muito o que falar! Muito boa, essa dose de humor em cada história!!! Já que o carnaval terminou, feliz 2012 à ti!!! rsrsrsrs…
Oi Marcelo! Como sempre, muito bom o seu texto. Posso me considerar uma defensora da natureza, não de hoje, que virou moda, mas de muitos anos atrás. Sei de todo o problema com o plástico. Porém nada me irrita mais hoje em dia, do que essa história das benditas sacolinhas de supermercado. E me irrita tanto e acho tudo tão absurdo e extremado, que vou ao supermercado sem sacola alguma e coloco minhas compras exatamente naqueles lindos saquinhos branquissimos e transparentes do setor hortifruti. Isso porque a pergunta que não quer calar é: aqueles saquinhos podem? Até hoje ninguém me barrou quando coloco as compras ali. Mas o dia que acontecer chamo o profeta Duñas! Parabéns novamente!
Esqueci da tal lei das sacolinhas e paguei o maior mico. Entrei em um supermercado em BH, onde fui para resolver uns probleminhas, e comprei uma bisnaga de salame de quase meio metro de comprimento. Paguei e perguntei pela sacolinha. Não podemos mais fornecer as sacolinhas, disse-me a moça do caixa. E agora? Meu carro estava estacionado longe dali. O jeito era levar aquilo nas mãos. Todos me olhavam com um sorriso maroto freiado nos lábios. E não é que no meio do caminho, de volta ao carro, um conhecido me para e pede para eu anotar uns dados? Sabem como segurei a bisnaga? No meio das pernas, pois o cara estava com as duas mãos ocupadas. Pois é seu Dunas (com o til em cima do n), continue profetizando. Quem sabe as sacolinhas voltam.
Para acabar com essa zorra toda basta que o consumidor adote os 3 R – Reduzir, reutilizar e reciclar. E o governo decrete que só se pode fabricar sacolas biodegradáveis. Meu abraço.
Este problema ainda não chegou por aqui… ainda temos nossas compras colocadas em sacolas fornecidas pelos supermercados.
Tento pedir sempre que reduzam a quantidade, que coloquem mais itens possíveis em uma só, pois acho um gasto desnecessário, e de qualquer forma, contribuo na preservação do meio ambiente.
Sempre aproveito as sacolinhas na minha casa, seja para lixo, seja para carregar algo para outro lugar, e à vezes até para recolher o nº 2 dos meus dogs.
Meu problema é não ter lixeira nas ruas, e tenho que ficar andando com a sacola recheada nas mãos, até chegar em casa…
Faço compras sempre muito grandes, e fica inviável que o supermercado não forneça as embalagens.. Eles poderiam fornecer caixas de papelão, como era a alguns anos atrás…
Excelente texto…
bjs
Que texto criativo! Com tanta coisa mais importante para se debater, o governo se atem a umas miseras sacolinhas que de tão frágeis já não aguentam o peso de uma duzia de laranjas e são naturalmente a que menos poluem o ambiente. Ah, que bom se se empenhassem no combate a corrupção entre seus pares. Dunã, o profeta, tem razão, não importa o saco mas sim o material colocado dentro dele que precisa ser averiguado. bjs