12

mai

ENSEBADO

por Marcelo Sguassábia

Troco numa boa mil megastores de livros novos com cybercafés por um sebo mal arrumado e labirintuoso. Daqueles encravados nos centrões das metrópoles, com as paredes caindo aos pedaços como os volumes que abrigam. Até meados dos 80, nos sebos a gente só encontrava livros e revistas. Hoje tem vinis, CDs, fitas de vídeo e até DVDs. Muitos têm brinquedos usados, jogos de tabuleiro, vitrolas. Outros dividem espaço com brechó. Mas sempre sebos, honestos sebos, sem nenhum vendedor chato querendo te empurrar os últimos lançamentos.

O que frequento é muito grande, Pra dar uma espiada rápida em tudo vai pelo menos uma semana. Sério. Como a empreitada é longa, pelo comprido galpão há banquinhos espalhados pro pessoal se acomodar, além de umas duas ou três poltronas. Velhas, com o estofamento puído, mas um oásis pras suas costas depois de algumas horas naquela babel.

Embora o habitué do sebo seja, ou quase sempre aparente ser, muito tímido, nem todos têm o perfil do rato de biblioteca. Há o frequentador funcional, rápido e rasteiro. Esse tipo é pragmático e não gosta de antiguidade, vai lá porque é mais barato, geralmente está atrás de um livro específico pra faculdade ou coisa assim. “Tem? Vou levar. Não tem? Tchau”. Pronto. Sebo nas canelas.

O silêncio impera nos sebos, e isso às vezes é constrangedor. Dá pra escutar a respiração da pessoa na prateleira ao lado. E a consulta aos volumes vai aproximando fisicamente um freguês do outro. Aí a situação fica insustentável, parecida com o “efeito elevador”. Um dos dois acaba cedendo, indo ciscar em outras paragens até o outro desocupar.

Uma vez comprei um livrinho impresso em 1912. O carimbo da livraria, de Campinas, mostrava um número de telefone inacreditável: 27. As ligações, na época, inclusive as locais, eram via telefonista. “Senhorita, por favor, me liga no 36”. Parece morador de prédio falando no interfone com o porteiro.

Imagino a peregrinação daquele volume com o passar dos anos. Pode ter sido dado de presente pra filha mais nova de algum barão do café, que passou pro filho dela, que o doou a uma escola pública, que o emprestou a um aluno, que ficou com ele até vendê-lo ao sebo, em meio a um lote de outros 163 volumes. Quis o destino que estivesse agora aqui, a poucos metros das minhas fuças. E daqui a 100 anos, onde estará?

Não raramente se encontra, como marcador de página, algo devastadoramente íntimo. Veja esse bilhetinho, que veio no meu “Sagarana” de sebo:
“Pedro querido,
Às vezes dizemos besteiras sem pensar. Magoar você é a última coisa que quero nesse mundo. A comida está na geladeira, é só esquentar. Depois conversamos melhor.
Sua esposa, que muito te quer,
Odila Maria”

Odila Maria. Quem será, ou seria? Qual o motivo daquela briga, o que aconteceu e quando? Como era sua vida, a cor dos seus olhos e cabelos, onde morava? A vida lhe deu filhos ou acabou se separando do Pedro pra virar freira? Pode ter morrido tragicamente num acidente de carro, dias depois.

Dedicatórias de Natal, de aniversário, formatura. Páginas com anotações do leitor a lápis, trechos sublinhados. Às vezes umas manchinhas. Goiabada, purê de batatas, misto quente, bobó de camarão?
Na última visita levei 14 vinis. De “Vida Bandida”, do Lobão, até uma coletânea de Ismael Silva. Total de 53 reais. Faz por 50? Faço, claro. Se preferir tem redeshop. É, sebo hoje trabalha com débito automático e cartão de crédito. Mais: há grandes sebos de São Paulo e do Rio com portinha aberta na web. Tudo separado por assunto, descrevendo o estado do livro e ano da edição. E dá pra dar zoom na capa. Você escolhe, compra e entregam em casa.

Mas aí também não tem graça. O legal é banhar-se naquele mar de ácaros e escancarar os pulmões à deliciosa poeira. E foi entre um espirro e outro que pincei um DVD de “As Invasões Bárbaras”, Oscar de filme estrangeiro em 2004. No estojo alguém escreveu, em esferográfica verde: “ L’ Amitié. Notre chanson”. Pesquisei no You Tube. Apareceu uma espécie de clipe em preto e branco, de 1965 e produção rudimentar, onde Françoise Hardy canta “L’Amitié”, uma romântica canção que embala a cena final do filme de Denys Arcand. Acesse e emocione-se. Se for alérgico a ácaros, tudo bem. Pelo menos por enquanto eles não vêm pela internet.

http://www.youtube.com/watch?v=MXWfb1PpmbQ

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Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário e colunista em diversas publicações impressas e eletrônicas.

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06

mai

ANÁLISES CÍNICAS

por Marcelo Sguassábia

I

Não tenho nada a perder, daqui a pouco vou dar um basta definitivo na minha vidinha sem parasitas, vírus, fungos e meningococos. O negócio agora é bagunçar esse coreto arrumadinho de tubos e lâminas, botar desordem na casa. É minha forma, ainda que um tanto sinistra, de deixar minha marca por onde passei. Gastei décadas nesse insípido cenário branco e esterilizado, onde se coletam temores e esperanças da vida lá fora. Se não posso mudar meu destino, mudarei o dos outros. De desconhecidos outros – para melhor ou para pior. Perdoem-me, tenho que fazer isso.

II

Misturando a amostra da Denise com a do Tácito Luiz… isso, lindo blend, a coloração tá ótima. Nunca se viram e firmam agora um pacto de sangue, quem diria. A hepatite dele passa a ser dela, a anemia dela também é dele. É bacana essa fraternidade, essa solidariedade mórbida me deixa com lágrimas nos olhos. Cada um entrou aqui com uma doença e voltarão os dois com dupla enfermidade. Agora, ao microscópio. Olha como tá de micose essa lâmina, Deus do céu. Mas como é difícil de tratar mesmo, digo no diagnóstico que não tem nada – assim o velhinho não perde tempo nem dinheiro tentando à toa acabar com esses fungos. Parece tão boa gente, não merece essa esfrega. Além do mais, disso ele não vai morrer mesmo.

III

Carcinoma hepatocelular, isso já deve estar em fase de metástase brava… deixa eu ver no facebook o perfil desse infeliz. Festa, churrasco, pescaria, ê vidão… deve enxugar uma cana lascada pra ter o fígado nesse estado. O laudo vai desenganar o cara, e não vai ter tratamento que dê jeito com a situação nesse pé. Tantos amigos e solicitações de amizade, que judiação. Não sou eu que vou estragar o seu restinho de tempo por aqui. Então vamos lá, meu camarada… “Aspecto benigno, não observados indícios de neoplasia”. Só aquele alívio na hora de abrir o envelope já é meio caminho pra melhorar muito o ânimo desse coitado. De notícia ruim já chega o Jornal Nacional. Maravilha, perfeito… agora o face… vou pedir pra me adicionar. Pode até não me aceitar como amigo, mas com certeza sou o melhor que ele já teve.

IV

Quintana Rubininsky… tinha um escroto no colégio com esse sobrenome. Se for parente, aí vai a maldição – tasco-lhe um positivo para HIV, tá bom pra você, querido? Vida louca, sem juízo dos infernos, se não tivesse má conduta o seu urologista não pediria o teste para afastar a suspeita. Aí vai, com toda a minha gratidão. É preciso que entenda que não é por mal, só estou fazendo minha parte pra tornar o mundo um lugar melhor.

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29

abr

ESTAÇÃO PARADISO

por Marcelo Sguassábia

Abre com lua e estrela, a pleno brilho em lugar qualquer. Clima de épico bíblico. Cena 2: panorâmica nos trilhos da linha azul do metrô. O filme dentro do filme dentro do filme. Metrô é espaço de passagem e não de saudosismo, destrói sem dó pessoas, memórias e o que restar de humano na meia dúzia de desolados a esperar na plataforma. Ninguém “é” estando ali, fica-se provisoriamente. Centenas de cópias piratas de DVD do monumento de Tornattore, prontas para serem esmagadas pelo próximo trem. Do jeito que fazem quando a Polícia Federal apreende contêineres de ray-bans falsificados. Travelling lento. Slow. Fusão para mim, dizendo em off algum lamento indecifrável. Uma cópia de cinquenta centavos do Cinema Paradiso não deixa de ser uma irônica continuidade dele. A banalização da permanência, diria o crítico com ar blasé ajeitando os óculos. A saga das películas salvas e guardadas, as âncoras enferrujadas na conversa dos dois na praia, o ancião cego ordenando que o menino vá embora da aldeia e não olhe para trás. A ferrugem da âncora, metáfora. Totó morreu do coração após aquele choro todo vendo as cenas de beijos censuradas pelo padre – imprevisto que não constava no roteiro. Ennio Morricone é outro que pode morrer em paz depois da trilha que fez, ela também nos trilhos agora, esperando a morte vestida de bites. Ninguém quase soube quando há meses um estilhaço de meteorito colidiu com o estacionamento onde fora o Nuovo Cinema Paradiso, que por sua vez era a reconstrução do antigo que pegou fogo. Pegaram fogo o velho cinema e o velho Alfredo, queimados o celulóide e o projecionista. Um dedo de poeira acumulada sobre a ruína da ruína da ruína. Daqui do buraco da estação eu sei que chove lá fora, no pavimento dos autos. É triste, não gosto. Quero de volta o meu ingresso, trazido pelo Totó menino com vestes de coroinha que vem chegando de bicicleta.

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22

abr

A LUNETA

por Marcelo Sguassábia

FOTO: HBO VOYEUR PROJECT

Na embalagem havia um enorme splash, onde se lia: “Montagem fácil e rápida”. Bom, dois dias e duas noites não é tanto tempo assim. O suficiente para encaixar nos lugares certos as lentes, roldanas, parafusos, porcas e cilindros de diferentes calibres e tamanhos.

Custou mas valeu, telescópio e tripé montados. Agora, ao desfrute. Ao merecido desfrute – porque que de ferro, só a luneta. Marca Superrvision, zoom de 1600 vezes, nitidez absoluta.

Primeira parada. Uma enfermeira dando comida na boca de uma velhinha em uma cadeira de rodas. Ai, que estréia mais sem glamour. E a enfermeira era mais velha que a velhinha.

No apê ao lado, uma bruta discussão. O engraçado era ver apenas as bocas se mexendo, os braços gesticulando, os socos na mesa, os rompantes coléricos e não ouvir absolutamente nada. Pastelão de cinema mudo, só faltou torta na cara.

Vamos lá, meu povo, cadê a sem-vergonhice? Duas horas e quinze e nenhuma mulher sem sutiã passando do banheiro para o quarto. Nem uminha. Tá louco, era o caso de devolver pro fabricante. Telescópio que se preze não faz um papel assim.

Três andares acima, um cara solitário no sofá, o nó da gravata meio afrouxado, à frente de uma TV de plasma. A lente é poderosa, dá pra ver a programação que o sujeito está assistindo. A sala escura, ele zapeia. A luz do aparelho refletida em seu rosto se altera a cada mudança de canal. Enfia um dedo no nariz. Que nojo, não volto mais na sua casa, seu sem-educação. Isso são modos?

No quinto andar havia uma loira de tirar o fôlego, há tempos já a observava a olho nu. A vadia não saía do quarto, dando mole pro primeiro telescópio que se habilitasse. Mais que depressa, zoom máximo na dita cuja. Era loira mesmo, e seria perfeita se não fosse um pôster. Duplo azar: além da mulher ser de papel, o quarto com certeza era de macho. Castigo pouco é bobagem.

Na noite seguinte, a caçada continua. Ao mirar no décimo-sexto andar do Edifício Itapuã, sua luneta dá de cara com uma outra luneta apontando exatamente para ele. Sim, tinha certeza que era pra ele. O voyeur do voyeur, a perversão das perversões. Assim que os olhares telescópicos se cruzaram, tentaram até fingir que não se viram. Uma luneta virou pra esquerda, outra pra direita, como se assobiassem, disfarçando.

Depois de umas dez janelas sem nada de interessante à vista, ele finalmente achou algo com que se entreter. Após um prolongado “Nooooooooooosssa!”, ali parou e ficou. Puxou até uma cadeira pra se acomodar melhor.

- Vai, vai, vai…
Uma voz feminina e muito familiar responde ao seu ouvido:
- Vai o que, Claudinho?

Era a esposa. Ô mulher pé de pluma. Quando deu pela presença, já estava no cangote. Mão na cintura, cobrando esclarecimento.

- Vai? Ah, sim. Vai logo, planeta, aparece logo, planeta…

- Planeta? Até onde eu saiba não tem planeta nenhum desse lado do céu. E mesmo se houvesse, esse prédio enorme aí em frente não ia deixar você ver nada.

- Nossa, é mesmo. Nem tinha reparado.

- Mãos ao alto, seu safado. Não mexe um milímetro nessa porcaria. Deixa eu ver o que você está vendo. Sai daí, sai daí!

Se aquilo era um planeta, só poderia ser Vênus. Um raro espécime do belo sexo, dessa vez de carne e osso, em trajes e poses que, digamos, acusavam claramente não tratar-se de uma freira.

- Sabe como é, testando o foco, querida…

E foi assim que, naquela noite, ele acabou vendo estrelas.

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14

abr

ENTERTAINER

por Marcelo Sguassábia

Filha única do casal Floriano e Aléxia Montezuma, Fatinha nasceu com uma memória prodigiosa, digna de tese pós-doc em neurologia. Dentre outras façanhas, a garotinha de cabelos cacheados aos 3 anos já sabia de cor o Princípio de Arquimedes, e a pedidos da família o enunciava às visitas. A certa altura das muitas reuniões semanais em sua casa, a partir de um sinalzinho combinado com o Tio Ernesto, lá ia a belezinha pro meio da sala, entrelaçando uma mão na outra e olhando para o teto, como quem puxa pela memória: “Todo corpo submerso em um fluido experimenta um empuxo vertical e para cima igual ao peso do fluido deslocado”. Um belo dia arrematou, num improviso que divertiu muito os convivas: “E a mamãe falou assim que o Seu Arquimedes saiu da banheira correndo pra rua, gritando Eureka, Eureka! e assustando a vizinhança com o bilau de fora. Não sei se é verdade, ela que falou. O bilau de fora também… não sei porque eu nasci sem bilau, mas em compensação”…

A mãe foi rápida e tapou providencialmente a boca da criança, antes que continuasse e dissesse o que não devia.

Quando o sarau familiar se estendia além do previsto, Fatinha era de novo convocada para animar o ponche com pães de queijo, dizendo os nomes das cores do pantone Suvinil. Os convidados se revezavam, escolhendo a esmo um código numérico no leque de 1.563 matizes. Sem titubeio, a menina dizia o nome da tinta. Era um festival de terracotas, verdes maritaca, brancos cordilheira, azuis netuno. Para cada acerto, palmas e mais palmas. Até que alguém falou o código E098, correspondente a vermelho carmim. E a menina: “foi dessa cor que o papai ficou quando pegou a mamãe no sofá da sala com o Tio Ernesto, os dois do mesmo jeito que estava o Seu Arquimedes quando saiu da banheira”.

Constrangimentos assim costumavam, compreensivelmente, esfriar a reunião. Mas nem sempre eram motivo para estragar completamente a festa. Assim, se após a Polonaise de Chopin, tocada pela madrinha da menina, o pessoal continuasse sem arredar pé, o jeito era chamar a Fatinha para outro número imperdível.

Depois de se fazer um pouco de rogada, lá ia nossa entertainer mirim a desfiar, um após outro e quase perdendo o fôlego, os nomes de todos os presidentes e vice-presidentes equatorianos e de suas respectivas esposas, por ordem cronológica de posse.

Se ainda assim os convivas pedissem mais festa, e não tendo mais o que servir para comer ou beber, apelavam de novo para a superdotada Fatinha, desta vez lançando mão de um expediente muitíssimo mais eficaz que a vassoura atrás da porta. Era quando a pequerrucha pegava pesado, ao declamar de cabeça um edital do DETRAN, convocando motoristas para comparecerem à delegacia regional de trânsito, com os nomes em ordem alfabética, modelo do veículo, números da placa e do chassi. Limpava o pigarrinho da garganta e começava: “Marca/Modelo: GM/Chevette/1982. Proprietário: Aarão Fonseca de Sousa, Placa LVG3213/PI, Chassi
9BGLL19BSRB332112. Marca/Modelo Fiat/ Siena/2004; Proprietário:
Abdias Hugo Soares de Brito, Placa LVI5840/PI, Chassi
9BWZZZ30ZKT007813”…

O decoreba agiu como um repelente de moscas. Terminado o serviço Fatinha foi para a cama, não sem antes dar uma lida no catálogo telefônico de Teresina.

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06

abr

CLUBE DA ESQUINA, 40

por Marcelo Sguassábia

Foto: museuclubedaesquina.org.br

 

A agulha sulcando o vinil é arado rasgando as serras das Gerais – sem meias medidas, num quase estupro consentido. Segue a girar como Minas gira coração e miolos adentro, em quem é de lá de nascença, por costume ou vitimado de deslumbramento, com seus potes de compota e velas de procissão. Belô dos mares de bares, todas as esquinas convergem conformadas e tímidas para aquela uma, a tal que ganhou mundo e fama. Seguem como devotas na quaresma, essas esquinas comuns que não tiveram clube, passos lentos e testas vincadas prematuramente. Seguem pela Via Crucis de paralelepípedos gastos, com baldeação em Três Pontas, Montes Claros e onde mais passe o trem azul. E reverenciam, de joelhos, o latifúndio patrimônio deste mundo. Esse queijão com um furo no meio que Deus benzeu.

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31

mar

DOIS DENTES

por Marcelo Sguassábia

Foi na sala de espera do dentista, enquanto matava o tempo lendo uma história em quadrinhos, que caiu a ficha. Me dei conta que os personagens, quando humanos, apresentavam no lugar dos dentes duas fileiras brancas sem separação, uma em cima e outra embaixo. De onde formulei minha teoria, inútil mas não completamente estúpida: os dentes deveriam ser 2, e não 32. Duas peças ósseas e inteiriças, lisas como fórmica, enraizadas nos respectivos maxilares.

Tudo bem que, ao dividir a engenhoca mastigadora em frações, a natureza foi sábia: havendo problema o reparo é localizado, só se mexe na porção avariada. Mas cismei de imaginar se mother nature, no caso, tivesse sido tão pouco inteligente quanto o meu devaneio.

Seria a ruína dos ortodontistas, que não teriam o que fazer com seus aparelhos corretivos por não haver mais dentes tortos nem encavalados para alinhar. Os fios dentais sumiriam das prateleiras e as escovas durariam décadas. Resíduos de alimentos não encontrariam onde se alojar, e consequentemente as cáries estariam em maus lençóis. Fábricas de palitos fechariam as portas da noite para o dia. Por outro lado, um tombo qualquer, em efeito análogo a uma pedrada no para-brisa, poderia trincar de fora a fora o reluzente semicírculo bucal, que ganharia um racho vitalício e indisfarçável. Os exames de arcada, comuns nas perícias criminais, deixariam de existir, já que todas elas seriam idênticas. Grafiteiros veriam na alva e extensa chapa um muro biológico para expressar sua arte. A cultura underground conceberia a Odontatoo, a tatuagem dental, personalizando o standardizado sorriso do freguês.

É, melhor parar por aqui. Antes que me arrebentem os dentes.

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24

mar

UM CONTROL Z DE PRESENTE

por Marcelo Sguassábia

Dedicado ao meu amigo e ilustrador deste texto, Thiago Cayres, que faz aniversário no mesmo dia que eu. E também para o meu pai.

Como de hábito, estava eu à noite na varanda, curtindo o fastio da janta e dando comida pro cachorro, quando o Homem lá de cima chegou de surpresa e aboletou-se na cadeira do papai. Que aliás, era mesmo do meu pai. Sem maiores cerimônias, ajeitou-se na poltrona, coçou por instantes a longa barba e desembuchou:

- Diga lá, criatura. Como é que está essa força?

- Oi, Criador. O Senhor por aqui!

- Trouxe pra você um presente. Não repara, é só uma lembrancinha.

- Um presente do Onipresente. Não precisava se incomodar…

- Imagina, temos que comemorar seu aniversário.

Abri o pacote, embrulhado em um papel cheio de anjos, e no fundo dele vi um pequeno cartão escrito com a inconfundível letra do Todo-Poderoso: “Vale um Control Z”.

- Meu Deus! Um Control Z! O comando mágico que conserta as besteiras que a gente faz no computador.

- Pois é, pra você apagar alguma burrada que tenha feito. Um erro que tenha cometido na vida, não no computador. Escolha o momento em que quiser voltar atrás e faça bom proveito. Seus hábitos de fazer o sinal da cruz quando passa em frente à igreja e de desviar das formigas que andam pela calçada o fazem merecedor deste mimo, meu caro.

- Ah, então já sei o que quero fazer. Aproveitando que o Senhor está na cadeira que foi do meu pai, traga ele de volta pra mim. Um Control Z faz isso, não faz?

- Meu querido, o que eu te dei de presente não é lâmpada de Aladim. Um Control Z só pode reverter uma ação que você tenha praticado e se arrependido depois. Ele funcionaria, no caso, se você tivesse colaborado para que seu pai se fosse. Mas felizmente não foi isso o que aconteceu. Do contrário você estaria bem arrumado Comigo…

- Bom, nesse caso, peço que o Senhor use o Control Z que me deu e conserte a Sua ação de ter levado meu pai. Com todo respeito que Lhe devo, o que me diz da ideia?

- Não diga nunca mais isso, sob pena de cair em pecado mortal! Como Onipotente, sou infalível. Se seu pai se foi, era a hora dele e não cabe a você questionar os Meus desígnios. Estou muito chateado com o que disse, e sua ficha razoavelmente limpa acaba de ser maculada.

- Mas Senhor, veja bem…

- Porém, Minha infinita bondade permitirá uma remissão do acontecido. Use o Control Z que acabou de ganhar para voltar atrás no que disse. Aí então estaremos quites. Sua impertinência o forçará a desperdiçar o presente que com tanto carinho escolhi para você.

- Tá certo… mas sem chance de me arrumar um outro Control Z depois deste?

- De jeito nenhum. Assim, sugiro que o use pra limpar sua barra com a minha Pessoa. Além do mais, se bem o conheço, você não ficará com a consciência tranquila sabendo que Eu voltaria lá para cima sentido com o que fez.

- Ah, isso não ia mesmo.

- Então vamos logo com essa história, porque Eu tenho a eternidade toda mas não tenho muito tempo a perder por aqui. Dê um Control Z no que disse, entenda que é para o seu bem e saiba que o seu pai está ótimo lá em cima, cuidando de importantes afazeres.

Fiz a vontade de Deus. Acionado o Control Z, olhei para a cadeira do papai e dei com ela vazia, como se nada tivesse acontecido. Só os latidos do Poopin, pedindo mais ração. E as batidas no meu peito, pedindo de volta o meu pai.

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17

mar

APARTAMENTO 607

por Marcelo Sguassábia

Naquele cubículo eu a amei mais do que seria o bastante a dois mamíferos normais. Ou mais do que seria conveniente aos olhos e ouvidos dos vizinhos.

- Essa penugenzinha mais espessa caminhando pro seu umbigo, olha só.

- Ah, seu bobo. Cada uma…

Viro pro outro lado e dou com o peixe em zigue-zague ali no aquário, assustadinho. A falta de gravidade, zumbe a bomba de ar, há um verde musgo nos cascalhos e o reflexo da gente distorcido no vidro.

Quero que a tarde plane sobre a pólis desse jeito, com a tv ligada e nos ligando por um zonzo abandono de afazeres. Além do mais, há quase um tudo nesse nada, e é um estrondo a brisa leve nas avencas. Que mais a gente pode desejar, a não ser o dilatamento do tempo governando o espaço nosso?

- Alguém acendeu um aqui perto, sente o cheiro.

- Cheiro é o seu, meu bem.

Cheiro é o dela. Estrógeno concentrado nos cabelos fininhos da nuca. A falta que você fez enquanto hoje não chegava, se soubesse. Se soubesse se arrancava de onde estava e se atirava sem vergonha sobre mim, antes do prazo combinado e dos procedimentos cumpridos.

Os dentes todos, brancos e seus, rompendo a carne da maçã. Que bom é assim, vendo você sem que se saiba sendo vista. O lençol se espraia em ondas pela cama. Florzinhas, detalhes, coisas de mulher que põe sentimento no cio. Há uma batalha em andamento nesses três metros por quatro, sem vencedor nem vencido, só a disputa e a conquista do território do outro. Estar dentro do outro lado, ser os dois lados e um só. Depois é água e bandeira branca, amor.

- Duas coisas, meu anjo: pede uma pizza e traz a manta.

- Sim senhora. E eu, também estou no pedido?

É de perder a cabeça quando ela aciona esse riso, como se abrisse um preview do mistério de que é feita. Vinte minutos de cócegas e guerra de travesseiros. Nada muito mais sério pode rolar daí pra frente, eu sei mas finjo que não e tento falar de nós dois enquanto conto suas estrias.

- Espera aí que eu já volto, o motoqueiro tá buzinando.

Uma sirene de polícia e um alarme disparado Sua pulseira sobre a antologia de Drummond. O relógio e as chaves de casa, do carro e de nós. Trago os talheres e os pratos.

Gosto tanto do atrevimento, tão raro e tão bem-vindo. Das poucas vezes em que você se presta a me domar. É claro que a porta pode se abrir para uma procissão de camelos, mandalas de pedra podem passar razantes sobre nossas cabeças que tudo bem, nada que assuste ou afaste os olhos cravados nos olhos.

- Me ajuda aqui com o fecho do vestido.

Se ela tem mesmo que ir, que vá cheirando a mim. A saciedade é uma ilusão que dura quase 10 minutos. Tudo o que vier a acontecer será só ínterim entre sua partida e seu retorno incerto.

O que consola é você deixar pequenos vocês nos arredores. Batom no copo, cabelo no ralo. Uns rastros poucos que duram, quando muito, até amanhã. E amanhã é muito longe da outra vinda, quando aqui será o nirvana novamente.

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10

mar

ÁGUA NO SHAMPOO

por Marcelo Sguassábia

ILUSTRAÇÃO: THIAGO CAYRESNão é novidade para ninguém que nosso salão está com os fios, ou melhor, com os dias contados. Ou tomamos providências emergenciais ou seremos forçados a fechar as portas.

As orientações abaixo são estritamente confidenciais. Se cairem nas mãos de alguém que não pertença ao quadro funcional, estaremos irremediavelmente perdidos. Assim, sugiro a todos que destruam este documento assim que finalizarem sua leitura.

De forma geral ficam valendo como padrões, até segunda ordem, os procedimentos a seguir.

Sem que o cliente perceba, procurem deixar o cabelo pelo menos meio centímetro mais comprido que o solicitado. Exemplo: nos cortes masculinos, se pedirem para cortar com a máquina 2, cortamos com a 3, se pedirem com a 1, cortamos com a 2, e assim sucessivamente.

Para as mulheres, sugerimos indicar como nova tendência mundial a franja quase caindo nos olhos, o que as obrigará a fazer manutenção do corte a cada 5 dias no máximo.

Vamos tentar, tanto quanto possível, canalizar os atendimentos para datas com lua crescente. Como todos sabemos, cabelos crescem mais rápido nesses dias e consequentemente o cliente volta antes.

Shampoo e condicionador: diluir na proporção de 3:1, no mínimo. E nada de repetir a operação, sob pena de demissão por justa causa.

As assinaturas de revistas, que já estavam suspensas desde 2006, prosseguem cortadas. Uma vez que ninguém mais lê revistas tão velhas, venderemos as que estão em uso para empresas de reciclagem, destacando em uma faixa ou cartaz que estamos fazendo nossa parte por um planeta sustentável, eliminando papel e colaborando para a sobrevivência das florestas.

Convênio com médicos ginecologistas.
O tempo que as mulheres perdem cortando os cabelos ou fazendo as unhas é, a bem da verdade, perdido. Assim, enquanto tratam da beleza poderiam também cuidar da saúde. Passaremos a oferecer um diferencial único no mercado: exames de Papanicolau simultâneo ao corte de cabelo, por meio de um aparato ginecológico volante, operado por médico da especialidade conveniado ao salão.

Banco de cabelos de notáveis.
Comportamento ético é muito bonito no discurso, mas não é este o caso em nossas atuais circunstâncias financeiras. Desta forma, partiremos para a fraude sem maiores dilemas de consciência. O engodo na cara dura. Simples assim: não jogaremos no lixo as mechas recolhidas no salão. Inventaremos donos célebres para elas, avalizadas por certificados de autenticidade igualmente falsos, com o cuidado de escolher tons de mecha que correspondam à cor natural do cabelo da celebridade. Como a descoberta do golpe seria caso de polícia e de uma pauta especial no Globo Repórter, ofereceremos as relíquias só em circuito interno e para os clientes mais bobos, que caiam facilmente na esparrela. Além de faturarmos bem com a brincadeira, ficaremos com a fama de sermos o salão de beleza de gente famosa.

Outras sugestões são bem-vindas. Lembrando a todos os colaboradores o lema da nossa campanha de redução de custos: “Quanto mais cortes de cabelo, menos de cabeça”.

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Marcelo Pirajá Sguassábia é redator publicitário e colunista em diversas publicações impressas e eletrônicas.

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